Como um dos objetivos de nosso site é contar a história das manifestações artisticas ligadas aos quadrinhos em São Paulo, Reproduzimos abaixo o texto escrito para o jornal Nossa Voz em 28 de junho de 1951 por Mauricio Kuss sobre o evento 1ª Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos considerada a primeira convenção de quadrinhos nacional lendo esse texto raro nota-se como os seus idealizadores estavam a frente do seu tempo já que além da exposição em si também abordam a questão do desenhista nacional e do mercado de quadrinhos da época, boa leitura"

Sob o patrocínio do Centro Cultura e Progresso realiza-se presentemente em sua sede social a 1ª Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos organizada pelo Studioarte, formada por jovens desenhistas desta Capital.

Trata-se de uma iniciativa de moços, honesta, levada a efeitos com meios modestos, o que basta para torna-la uma realização bastante simpática e merecedora de uma demorada visita por parte de todos os interessados em qualquer espécie de arte moderna.

Na exposição pode-se verificar trabalhos originais e impressos de Alex Raymond (Flash Gordon) Harold Foster (Principe Valente). Milton Caniff (Steve Canyon). George Wunder (Terry e os piratas) All Capp(Li'Abner), separados por blocos e tendencia artística de cada um, conforme critica explicativa feita para cada trabalho.

Além disso poderão todos notar trabalhos e publicações de histórias em quadrinhos de quase todos os países do mundo entre os quais se incluem amostras da Itália, Polônia, Canadá, Portugal, Argentina e muitos outros países.

Porém o mais importante da exposição não é este particular, puramente artístico, mas o fator social e educativo que a história em quadrinhos pode apresentar, aliado ao fato de que tal Exposição levantará seriamente um problema: O do desenhista nacional. Como é sabido a grande maioria das histórias em quadrinhos publicadas no Brasil, provem dos Estados Unidos, Não obstante desenhistas de todo mundo, inclusive brasileiros se dedicaram a esta forma de interiorização dos conhecimentos humanos, Isto se dá em virtude da existência de alguns trustes que controlam toda a produção de histórias em quadrinhos destacam-se dentre eles o "King Features Syndicate" e a "APLA" com  ramificações aqui no Brasil. Este reduzido número de cadeias de produção dos Estados Unidos espalhado pelo mundo todo, vende aos proprietários de jornais e revistas a preço vil, matrizes de papelão de histórias já publicadas nos Estados Unidos, Estas cadeias associam-se, por assim dizer, a quantos em cada pais desejarem produzir revistas infantis, deixando nas mãos de de seus proprietários lucros fabulosos, tornando completamente impossível ao desenhista nacional competir em preços, mas que poderia produzir leitura infantil mais digna, mais útil, mais bela, mais saudável;



A atenção do público para a exposição fará com que de abram os olhos contra os habituais detratores da história em quadrinhos que combatem intransigentemente sem ao menos conhece-la e muitas vezes por estarem ligados a editoras de livros de historietas infantis sem tiragem.
Ninguém pode, de boa fé, desconhecer as imensas possibilidades das histórias em quadrinhos como expressão artística e como instrumento de recreação e educação. E, se infelizmente a maior parte delas prega a violência e conta histórias de super-homens e homens-borracha, cumpre por isso mesmo e com urgência separar o joio do trigo.

Esclarecer a critica e a opinião no sentido de preservar e ampliar as boas histórias, substituir mas más, e incentivar os desenhistas nacionais que possam criar e adaptar temas brasileiros, este é o objetivo da exposição e além do tudo patriótico pois que, sem ter ligações com nenhuma organização ou entidade comercial, visa eliminar deturpações que vem sendo impostas à infância por certos "capitalistas da imprensa" que se dedicam a publicação de histórias em sequencia e que impedem o aparecimento de verdadeiros valores artísticos no domínio da história em quadrinhos.